BRENDA SALES (Apreensões de uma adolescente de 15 anos)

O MUNDO ME ASSUSTA. Eu, com apenas 15 anos, já posso perceber a falta de humildade das pessoas. Muita gente pode dizer que o que está matando é a fome, a sede, a falta de educação, o crack, a cocaína... mas tem algo que está matando muito mais do que tudo isso junto. Um homicídio, ou um suicídio, chame do que quiser, muito mais grave do que o que você vê estampado nas manchetes de revistas ou na chamada dos telejornais. Um crime que envolve não só a pessoa como um ser carnal, mas como um ser espiritual: essa coisa se chama falta de caráter. É por sempre querer dar um jeitinho nas coisas, por tentar se safar ao cometer erros, por justificarem suas ações injustificáveis, por enganar a si mesmo com histórias que nem mesmo acreditávamos no começo, que nós, seres humanos, vamos sucumbindo aos poucos. Vamos perdendo o brilho no olhar, o prazer de sermos bem-sucedidos, o orgulho de sermos pessoas íntegras e de caráter. E o problema é ainda mais grave do que imaginamos. Mais grave, pois, hoje, para ser mais exata, nessa mesma fração de segundo, existe uma criança dentro de uma sala de aula em algum lugar do mundo. E essa criança vai crescer em meio a pessoas que não têm os mesmos valores que ela. Vão ter pessoas que vão se aproveitar dela, que vão usá-la para fazer seus projetos, ou até para copiar uma atividade. Ela vai crescer vendo outras crianças se apropriando do trabalho dos outros: colando em provas, pesquisando gabaritos e sempre tentando dar aquele jeitinho que eu mencionei no começo do texto. A triste verdade é que o que a gente vive no dia a dia muitas vezes define os nossos princípios e o que a gente julga certo ou errado, confundindo nosso conceito. Essa criança, que hoje estuda, amanhã não estará mais na escola. Amanhã ela poderá estar em um tribunal, hospital, construtora, parlamento ou sentada na cadeira da presidência. Não importa onde ela esteja, essa criança nunca vai se dar conta de que as atitudes que ela observava quando criança são as mesmas que ela observa no mercado de trabalho. O desvio de ética de uma pessoa quando se é criança ou adolescente é silencioso. Mas, “boom”, do nada ela cresce. Me dói no coração ter apenas 15 anos e já perceber que existem pessoas o tempo todo tentando levar a melhor. Você pode se perguntar: de quem é a culpa? Dos pais? Da escola? Do competitivo mercado de trabalho, que quer sempre que as pessoas sejam superiores umas às outras? Do país? Da genética? Aqui eu te digo: a culpa é sua e minha também. Todos nós carregamos essa culpa por sermos testemunhas de um atentado constante contra a índole das pessoas e ficarmos de braços cruzados. Obrigada.

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