MEMÓRIAS DO LUGAR ONDE EU VIVÍ –

DA INFÂNCIA FELIZ À MELHOR IDADE VITORIOSA.

Falo de Periperi, subúrbio de Salvador, Bahia. Fui viver neste aprazível lugar com idade de 2 anos. Filha de odontóloga e advogado, não fui a primogênita, mas ocupei essa posição porquanto o primeiro filho dessa família foi natimorto.

Periperi era uma fazenda onde se estabeleceu a oficina da Rede Ferroviária Federal Leste Brasileira; os operários iniciaram o povoamento desta enseada na Baía de Todos os Santos. A praia encantadora, ainda sem poluição, o pôr de sol lindo! Residíamos numa chácara dos avós maternos. O avô tinha aprendido a função de veterinário, pois não havia curso superior na área, na Bahia; graduou-se em Odontologia pela Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira escola médica do Brasil. Era cirurgião dentista e montou seu consultório na própria chácara. A avó foi educada no Sacré Coeur, preparada muito bem para a função de esposa e mãe.

Morar na chácara era viver feliz. Não faltava companhia para as brincadeiras de criança, quatro cantinhos, cozinhado, aniversário da boneca, baleado, depois, a bicicleta.    A própria chácara nos proporcionava muita alegria. Era bem arborizada, eu gostava de ler sentada em um galho. O jardim era bem cuidado, o filco desenhava uma grande estrela, o perfume do jasmim, bouganville de todos os tons, plantas que florescem no fim do ano colorindo de amarelo o ambiente.  E tantos animais eram criados: cães de guarda, galinha, peru, pato, galinha d’angola. Dar comida aos animais com a avó era uma atividade encantadora. Colocar os patinhos para nadar, que interessante!

 Meus 4 anos em Periperi trago bem na memória por dois acontecimentos importantes: o nascimento do meu irmão e a formatura do pai em Medicina, em 1942. Gravei a imagem do meu pai de beca entrando para uma solenidade com música bonita, em Salvador. Pude entender, posteriormente, o significado daquele momento, meu pai o orador da turma.

E a educação, em Periperi? Fui alfabetizada por meu pai.  Não havia pré-escola. O método de ensino para a leitura era do meu próprio pai, usava as letrinhas da sopa, o jornal A Tarde e aprendi rápido dizendo minha mãe que reconhecia as letras com um ano e meio e lia aos quatro anos. Escola pública para o curso primário, só havia uma, bem em frente à casa, o Grupo Escolar Anfilófio de Carvalho.

No subúrbio o meio de transporte era o trem para Salvador, distante cerca de 12 km. Não havia estrada de rodagem, o cavalo era muito utilizado. Não havia telefone.

Os problemas de saúde eram resolvidos pelo farmacêutico Dr. João Leovigildo de Almeida, dono de uma farmácia. Depois de graduado, o Dr. Osvaldo Devay de Sousa, meu pai, passou a ser o primeiro médico residente no subúrbio, sem direito a especialidade, necessitando atender todo e qualquer caso que surgisse, especialmente depois das 22 horas, quando não circulava trem para se buscar atendimento em Salvador. Mas em consultório particular, em Salvador, no bairro de Calçada, meu pai era pediatra.

Na minha segunda década, preparada para o exame de admissão ao ginásio e aprovada, frequentei o Colégio Estadual da Bahia, subunidade de Itapagipe, que depois passou a Ginásio João Florêncio Gomes. Meu turno era o matutino; viajava de trem até a Calçada para usar o bonde e chegar a Itapagipe. Em dias de educação física, em horário mais cedo, o trem partia às 5:20h, em estações chuvosas era escurecido, ainda sem sol. Necessitava da companhia protetora do meu pai que viajava comigo. Mas o trem, qualquer que fosse o horário em que circulava, era um ponto de encontro da população, uma oportunidade de trocar ideias, atualizar-se sobre acontecimentos, rever amigos. Era a idade dos esportes, pratiquei o vôlei. Cinema, havia o Cine Periperi; funcionava aos domingos, no sistema de rolos com intervalo para mudança deles. Havia o Palácio da Alegria, galpão coberto, bem construído, propriedade de um tio avô, com bastante terreno ao redor para a prática de esportes. Posteriormente este espaço foi transformado no primeiro Clube Social de Periperi e ficou muito famoso porque um político local, Castelo Branco, conseguia trazer os artistas nacionais para shows, como Roberto Carlos, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, Perla, conjuntos musicais, como Trio Irakitan. Posteriormente foi fundado o Flamenguinho Esporte Clube. Foi também o período em que Periperi atraiu veranistas pela beleza das praias. Jorge Amado inspirou-se para escrever Os Velhos Marinheiros, em Periperi Neste período houve um engavetamento de trens que circulavam entre Periperi e o subúrbio de Coutos o que abalou não só o local como, também, todo o subúrbio ferroviário, com reflexos para Salvador, pelo número de acidentados e a gravidade de alguns. Guardo até hoje a imagem de um rapaz ensanguentado no chão da estação, com ambas as pernas em farrapos, aguardando socorro. O quadro me inspirou o desejo de ser médica e de poder ser útil em casos semelhantes. Esse desejo foi crescendo, acompanhando os atendimentos médicos que fazia o meu pai, em consultório anexo a nossa residência, e fora de hora, a qualquer tempo durante a noite, deslocando-se para a casa de pacientes a pé, muitas vezes para fazer os partos. Por coincidência, chegou a idade do exame vestibular, fiz em duas faculdades, fui aprovada em ambas, mas o tema da redação para a Faculdade de Medicina que escolhi cursar, foi, exatamente, “O que lhe influenciou a estudar Medicina”.

Casei-me com colega médico, e logo iniciamos nossa vida profissional em Periperi. O subúrbio evoluía, a população aumentava, foi construída a primeira estrada de rodagem dando acesso à cidade de Salvador o que contribuiu para o grande progresso de todo o subúrbio. Em abril de 1972, com seis colegas, fundamos a primeira clínica de urgência do subúrbio, a CLISUR. Logo após, fundamos o Lions Clube Salvador-Periperi. Éramos muito ocupados, eu funcionária federal na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, ensinando na graduação de medicina e funcionária pública estadual, exercendo o cargo de médica pediatra. O esposo, tenente médico da Polícia Militar cargo do qual se exonerou para assumir o posto de médico da Petrobrás, conquistado mediante concurso. Já com três filhas, no Lions, criamos o Clube de Leonitos de Periperi, e dentro desse clube de crianças, formamos o coral Leonitos Cantores de Periperi. 

Na década de 60, em Periperi, havia um conjunto musical de crianças, o CONJUNTO CINCO IRMÃOS, cujo pai, Adolfo Paca Klein, organizou montagem eu um caminhão ornamentado por folhas e eletrificado, sendo o precursor do Trio Elétrico. Em livreto escrito por um dos irmãos, transcrevemos “utilizando um caminhão velho e pequeno, vestido de talas de palmeira com aparelho de pequena capacidade sonora e dois projetores de som, um na frente e outro atrás”....  Periperi tornou-se conhecido no Brasil por este conjunto eletrificado ter sido aperfeiçoado, posteriormente, por Orlando Campo Bahia e seus irmãos, todos moradores de Periperi, construindo um “transatlântico” em caminhão alugado do Sr. Ursulino, a que deram o nome de CAETANAVE e onde Caetano Veloso participou, pela primeira vez, cantando em um TRIO ELÉTRICO”.

    Em 1992 fundamos, eu e o esposo, a CLÍNICA AME (Atendimentos Médicos Especializados) em Periperi, que foi tema de minha tese de doutorado, e de livro publicado em 2016.

Autora: Ogvalda Devay Torres

Médica, música e escritora

Academia de Letras do Brasil

Seccional Bahia

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