Autor:  Davi Bernardo

Escritor, Pintor

Piapoba

    Piapoba não era de ninguém. Apareceu na rua, alguém deu de comer e ele foi ficando, ficando. Ninguém sabe de onde surgiu com esse nome estranho. Era grande e manso. Feio. Mas tinha alma fina, alguma elegância inexplicável. Não se deixava escravizar pela comida como os gatos. Lá em casa comia quase todo dia, pelo menos uma vez. No início, meu pai reclamou, mas depois cedeu. Com seu jeito, conquistava todo mundo, mas não se prendia a ninguém. Às vezes sumia, só voltava três ou quatro dias depois. Quando morreu, Raquel chorou, eu chorei, todo mundo. Vai ver até meu pai chorou, não sei. Queríamos um cemitério de cachorro para ele. Minha mãe explicou que não havia. Tivemos de nos contentar com um enterro simples, num terreno baldio na esquina da rua. Deve estar no céu, porque não cometia pecado algum.

Insone

O sr. D. gostava de espectar, palavra que dizia ter inventado e que derivaria de espectador. Parar distraído e observar: o dia que morre, a luz imperceptível da lua atrás das nuvens, o silêncio que é próprio da madrugada. Era assim que percebia a noite quando não lhe vinha o sono. Sentava na varanda, ao lado do cachorro que, hora sim, hora não, levantava a cabeça, olhava em volta, via-o distraído ou atraído por qualquer luzeiro, de noite assim como esta, e voltava a dormir, indiferente à insônia persistente de seu dono. Não era comum que ocorresse, mas vez por outra acontecia e não tinha o que fazer. Esperava o dia retornar e ia para o trabalho cansado. Não confiava em remédios.

Academia de Letras do Brasil

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