Autor : Ildo Simões.

 Médico e poeta. Presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES BAHIA.

Pernas - ( Fábula )

A queixa das pernas é de terem nascido pernas. Viviam numa arenga diária.

-Abaixo de nós estão os pés que pisam em caco de vidro, formigueiro, querem subir quinhentos degraus para pagar promessa e por aí vai... Coitadas de nós!

Pouquinha coisa acima estão os joelhos. Há coisa mais feia do que joelho? Até hoje não sabemos se joelho tem cara de recém-nascido ou vice-versa.  Mais acima vêm as coxas que no principio eram coladas e só viviam fofocando. À noite então nem é bom lembrar. Era o mesmo disco de sempre: -Viu aquele gato me passando um rabo de olho!!

Além disso quando eu passava arrastando este monte de entulho que tem acima de nós, os gaiatos quando nos abordavam era pra elogiar... as coxas!!

Era sempre o mesmo insólito e desabusado elogio: -Que  belo par de pernas, mas que todo mundo sabe que estavam se referindo...às coxas!!! Só os mais antigos elogiavam os meus tornozelos. Parece que achavam o nome bonito: - Esta prenda tem uns belos tornozelos. Imagina-se o que as vestes estão a cobrir!! Era quase uma frase machadiana que elogia ombros e tornozelos.

Isto merecia uma gargalhada esplendorosa das coxas que não paravam de fofocar:

- O  elogio foi pra mim, dizia a coxa esquerda.

 –Não! Replicava  a outra; ele passou olhando o lado direito.

Este papo era diário. Um dia, remoendo nossos pensamentos, rezando nosso terço depois de uma grande caminhada, ficamos a matutar o que fazer para separar as duas impertinentes. Assim pensado, mãos à obra :----_Coxa é mulher e mulher tem medo de bicho.

Alguns vieram à nossa mente:

-Rato!! Não!! Rato é muito grande, come muito, vai ser um inferno.

-Barata! Ih! Barata até nós temos medo. É bicho muito nojento e procria muito. Além disso, barata costuma voar. E barata voadora até homem falso à bandeira tem medo,

-Eureka!!! –Achamos a solução! Uma perereca!! Pensando alto, saímos à procura duma perereca. Achamos, guardamos no sapato e esperamos a noite chegar. Coxa também se cansa, e dorme. Quando começaram a ressonar fomos pé ante pé, e colocamos a perereca entre elas.

Nunca mais se encontraram.

-Ei sai daí, dizia uma. Pega pelos pés e atiça fora, dizia a outra.

Mas o medo impedia qualquer aproximação.

Isto já dura milênios sem que nenhuma das duas se arrisque a mexer no inocente batráquio.

É verdade que nossa vingança nos trouxe outro problema: - Não sabíamos que a perereca tinha tanta fome...e nem sempre se alimenta com o mesmo tratador...

Mas tá dando certo, com pena, claro da China que já não sabe como alimentar a produção.

Entrou por um pé de pinto....

Lamento

Num fim de tarde friorento

Me sento à beira do rio...

A dor que me aperta o peito

Impede a lágrima  rolar .

O velho Chico barrento

De margens descabeladas

 segurando a correnteza

Com medo do sal do mar

Que vai lhe entranhando o corpo

Tal praga de gafanhotos.

Ou tsunami no mar

Piranhas e surubins

Respiram sal e areia

Como a purgar um pecado

Que por certo desconhecem

Os ímpios com suas lanças

Com seus potes de veneno

Vão matando o velho rio

Que resfolega, cansado,

Como a subir carregado

Ladeiras do Himalaia.

Um dia outro viajante

Sentará nestes barrancos

Pra contemplar o deserto

Do que outrora foi um rio.

...ah dias de minha infância.

Ah meu céu  de primavera

Faz um milagre Casemiro

Traz a infância de meu rio

Devolve-lhe as ingazeiras

Seus sanhaços, cambaxirras

Capivaras preguiçosas

Que se banhavam no rio

Elas não podem morrer

Tuas canoas,  carrancas

Teus sertanejos mulatos

De pele curtida ao sol

Quem  sabe com teu parnaso

o rio volte a viver

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