DOCE PENA

Moldou-se a Eva de uma adâmica costela.

Sem ter brotado da cabeça como Atena, 

Sensível se tornou, além de sábia e bela,

Com o sopro que Deus lhe deu de vida plena.

A história posterior não passa de querela

Entre homem e mulher: é a guerra pouco amena

Dos sexos. A vitória é quase sempre dela.

Ao perdedor chorar-lhe resta a doce pena.

Não parece o melhor dos mundos este nosso.

Coubesse opção, eu mesmo assim o ia querer.

Só por hipótese, sonhar com outro eu posso.

Mas se é pensado sem o charme da mulher,

Isento embora de conflito, o não endosso.

Pois, se Eva falta, reinventada tem que ser.

“Onde encontrar consolo para minha dor?” (Jr 8, 18).

“Sine dolore non vivitur in amore – Sem sofrimento não 

se vive no amor”. (Tomás de Kempis).

“Amor é o mal de toda gente” (Guilherme de Almeida).

--------------------------------------------

Sempre me empenharei, jornada após jornada.

A diferença poderá ser acertada,

Já que o conflito apenas é distributivo,

Sequer para uma surda guerra é bom motivo.

Se pedes tudo, sem amor, não levas nada.

Entretanto, se permutares teu conceito,

E o brete a impor-me não for demasiado estreito,

Farei de tua benquerença o meu escudo.

Trocando a rígida cobrança por oferta

De amor sem interesse, poderás vir certa

De que de mim terás não menos do que tudo.

“Não sei para que é ter contentamento, / Se mais há de perder quem mais alcança.” (Camões).

“Por só quereres tudo, e eu dar-te nada / Hei de lembra-te sempre com ternura.” (Vinícius de Moraes).

“O destino de quem ama / é vário / como o trajeto do fumo.” (Cecília Meireles).

Autor: JOSÉ NEDEL

Além de renomado Poeta, é Mestre/Doutor em Filosofia e Juiz de Direito em Porto Alegre – Rio Grande do Sul.

Academia de Letras do Brasil

Seccional Bahia

© 2017  Criado por Fenix Solução