Autora: Josiane Pereira Conceição

Professora, educadora e escritora.* 

Um Sonho Juvenil

Era uma fria tarde de inverno e lá estava Arthur a contemplar a sua amada. Todas as tardes, Júlia adentrava em sua video locadora e com aquele andar elegante, corpo esguio, pele morena bronzeada pelo sol, lábios carnudos e cabelos esvoaçantes, passeava por entre as prateleiras à procura de um filme que a fizesse entreter. Essa busca levava cerca de meia hora – mas era tempo suficiente para Arthur “viajar” por suas curvas sinuosas. Assim como fizera no primeiro dia em que a vira.      

Foi uma cena emocionante! Daquelas que é impossível esquecer. Quando a porta se abriu, apareceu aquela Deusa de olhos grandes, negros e sedutores, pele cor de jambo, usando um vestido vermelho que delineava com precisão as formas do seu corpo perfeito, deixando-a ainda mais irresistível.

Desde então, Arthur não consegue mais esquecê-la, passa o dia inteiro sonhando com ela, imaginando tê-la em seus braços, beijando-a com fervor e paixão, fazendo juras de amor eterno...

Mas a timidez o impede de se aproximar e declarar todo o seu amor – ele fica nervoso só de pensar!

Arthur está sequioso de paixão e não pensa em outra coisa, a não ser, pedi-la em casamento. Já havia até comprado as alianças – ouro puro! Cravejada de brilhantes! Um espetáculo! Custou-lhe uma pequena fortuna. Mas ele sabia que valeria a pena, pois mulher igual aquela, era como diamante no garimpo – difícil de encontrar!

Já não mais podendo conter esta louca paixão que o domina e o consome a cada dia, Arthur resolve se declarar...

Mas quando, delicadamente, aproxima-se de Júlia e toma-lhe as mãos finas e delicadas, ouve uma voz ao longe chamar o seu nome...

Arthur! Arthur! Acorda homem... A comida já está na mesa faz um tempão!

E assim... Vai seu Arthur, na casa dos seus oitenta e nove anos, sendo novamente despertado do seu sonho juvenil se dirigindo para a sala de jantar.

 

* Como diz minha patronesse na ALB-BA, Cecília Meireles, “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta (...) Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei...” Por esse "Motivo" faço assim meu retrato: Josiane Pereira da Conceição, ou, simplesmente, Josi. Professora por opção, aprendiz de escritora nas horas vagas, amante dos livros e das boas leituras, delicio-me com as Obras de Cecília Meireles e Clarice Lispector - talvez por isso goste tanto de silêncio e solidão. E também, como diz Clarice, “Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.”

Academia de Letras do Brasil

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