Autor: Luiz Pondé de Oliveira Barretto

Triplamente vitorioso profissionalmente: na condição de Executivo – Educador – Empreendedor, além de Escritor Poeta.

                  REFLEXÃO A BEIRA MAR

Os veranistas da Ilha de Itaparica costumam defender a superioridade dos seus recantos ou praias escolhidas para férias com um misto de vaidade, lealdade e promoção do local. Assim é que os que estão no distrito de MAR GRANDE defendem a existência da infraestrutura lá disponível.  Os moradores e veranistas de Cacha-prego, enaltecem o estado ainda natural e a natureza piscosa do encontro do rio com o mar que é uma atração deste local.   Aqueles, como eu, que desfruta a praia de Barra do Gil alegam que os arrecifes postados ao longo do mar e nas proximidades da praia cria variam piscinas naturais, tornando o banho de mar um prazer inigualável em maré ala ou baixa. Outras praias se dizem melhores, mas, de fato só com maré cheia, outras só com maré baixa, outras defendem o ambiente social.  Eu afirmo e subscreve BARRA DO GIL tem tudo isso.

                                 O fato é que uma vez feita à escolha do local, seja por motivos afetivos, econômicos ou simples relacionamento social o veranista estará, definitivamente, comprometido com defesa daquela pretensa superioridade do local onde ele está e cujo grupo a que pertence lhe exige lealdade inabalável.

                     Neste inicio de janeiro de 84, Barra do Gil ofereceu a este veranista um elemento comparativamente superior: a oportunidade de meditar sobre o ato de aprender.

                     Sentado sob o sol daquela exuberante costa meio baía e meio atlântica eu costumava observar como um garotão (ou “gatão” como querem os jovens) ou uma “cocota” tentavam aprender a velejar na prancha a vela (windsurf) que, aparentemente, pelo brilho de coisa nova deveria ter sido presente de Natal. Afinal a evolução dos seres humanos estava ocorrendo ali às minhas vistas tendo como pano de fundo a deslumbrante cenário do perfil da cidade de Salvador. Percebi o óbvio: a evolução dos seres humanos ocorre não somente através de gerações como também dentro de curtos períodos de tempo enquanto os seres humanos desenvolvem ideias mais realistas ou mais práticas sobre mundo.

                     Assim, o garotão desenvolvia novas ideias acerca do velejar no windsurfe.  Após a primeira queda n’água deveria pensar: “... não é fácil,...”, requer força de equilíbrio! O adulto também desenvolve novas ideias, baseados em antigos conceitos já aprendidos. Assim um motorista, após sentir a primeira derrapada, verifica que o grau de liberdade, ao dirigir um auto em pista molhada, é menor que em pista seca. Ele está aprendendo.O que me chamou a atenção no caso do aprendizado do garotão e da “cocota” com o windsurf foi o conjunto de características naturais do ato de aprender levando-me a refletir sobre o lado artificial (não natural) da atividade escolar.

                     Em primeiro lugar, observando as quedas e as escorregadelas dos dois estudantes do velejar na prancha (windsurf) concluí que cada ação deles resultava em uma consequência imediata que trazia pelo menos algum benefício potencial para o aprender. Em segundo lugar, eu arriscava generalizar: “uma ideia velha é substituída por uma nova que é provavelmente mais apurada”. Usualmente, na mudança de um conceito velho para outro mais preciso - sobre um dado fenômeno - reside o que chamamos de aprendizado. Aprendendo a subir na prancha estando em posição perpendicular ao vento era agora um conceito novo e superior àquele inicial pelo qual a “cocota”, caiu no mar, acreditando poder subir na prancha em qualquer posição.

                     Para a maioria das situações de aprendizado não existe um conjunto de respostas ou soluções. Aprender é um processo natural e gradual de aproximação via experimentação. As respostas não são absolutas e, provavelmente, mudam quando as condições supervenientes no entorno do processo se modificam.  No dia-a-dia, ou minuto a minuto, a aprendizagem com a prancha evoluía e eu apreciava o progresso, uma vez com o garotão, outras vezes com a “cocota”. Notei que nenhum deles tivera que se desviar do seu modo de aprender. Individualizado? Talvez. O fato é que a aprendizagem ocorria mais, naturalmente, para os que estavam, provavelmente, mais atentos às consequências de suas ações.

                     O aprender em tais circunstâncias é frequentemente denominado de APRENDIZAGEM POR TENTATIVAS e ERROS. Os erros constituem as oportunidades do aprender. O aprendizado é mais eficaz se o aprendiz observa, com mais cuidado, as consequências; assim o garoto gritava ao colega - “seu burro preste atenção! Observe a que você fez! (ele quer dizer: observe o que aconteceu!)”.

                     Não há nada de novo nessa reflexão de verão. Todos sabem que alguns estudantes têm dificuldade na escola. Contudo, ao observar o rápido aprendizado dos jovens com o windsurf e a discussão entre eles sobre as variáveis para o bom desempenho (vento, maré, ondas, posição dos pés na prancha, manejo, etc.) acreditamos que o problema de aprendizado escolar não é resultante de falta de habilidades naturais para aprender. Questiono-me então: será que na escola tem havido, implicitamente, uma suposição de que as “habilidades naturais do aprender”, para sobreviver no mundo, são as mesmas habilidades necessárias para o sucesso NA ESCOLA COVENCIONAL?

                     Refletindo, prometo a mim mesmo, no fim do verão, retornando do veraneio e de volta a sala de aula farei diferente...

                     Ao apreciar a praia, o mar e o cenário alegre dos banhistas, refletimos, também, sobre uma diferença óbvia entre a escola e a vida. Lembrei-me de um trecho do livro prefaciado pelo famoso e acatado educador, Paulo Freire, denominado “CUIDADO ESCOLA”:

 

                     “NÃO HAVIA PROFESSORES – Todo adulto ensinava. Aprendia-se a partir da própria experiência e da experiência dos outros. Aprendia-se fazendo o que tornava inseparáveis o saber, a vida e o trabalho”.

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