A CRIANÇA DO CASARÃO

A casa era imponente, bonita e bem cuidada. Reinava grande

harmonia entre todos que lá habitavam e, entre estas pessoas, havia

uma criança linda, meiga e muito amada. Vamos chamá-la de

Esperança.

                   Esperança era uma criança que vivia intensamente sua infância,

povoando-a com inúmeros sonhos, muitos deles projetados para um

futuro que ela, em algum lugar de seu coração, tinha a certeza que iria

se realizar.

                   Sentada na cadeira de balanço da varanda, olhando a

mangueira repleta de mangas, fantasia e realidade tornavam-se uma só

coisa. A menina mergulhava em seus sonhos. E eles eram muitos,

eram alegres, alguns simples e cristalinos como as águas do rio que

corria nos fundos do terreno da casa. Outros, entretanto, traziam

imagens que a ela pareciam de alta transgressão e sobre os quais tinha

que confessar: eram eles que ocupavam maior espaço em seu mundo

interior, permitiam os grandes saltos, desnudavam horizontes novos.

Sem dúvida eram vitais para sua alma.

                   Esperança não estava sozinha nessas andanças. Ela tinha uma

irmã a quem dedicava especial carinho e que integrava seu mundo.

Eram muito companheiras, amorosas e cúmplices nas brincadeiras.

Viajavam juntas pela terra da fantasia onde cultivavam amigas que

vivenciavam experiências que às irmãs não era permitido viver, mas

ouvi-las contar suas aventuras. Tudo tinha um sabor e encantamento

especial. Essas figuras “de um outro mundo” adquiriram um papel

significativo em sua vida. Seus relatos emocionavam, faziam com que

se transportasse para cada cenário narrado, vivia as emoções de cada

cena. Tudo era tão real nessa brincadeira de criança!

                   Tão real quanto os jogos de baleado, as corridas de saco, as

pedaladas de bicicleta, as cantigas de roda... E a menina foi crescendo e

com ela as lembranças. Eram muitas. Os vendedores de frutas que a pé

ou em cima de suas mulas gritavam pelas ruas:

– Olha a laranja lima!

– Caju, caju. “Vai querer, freguesa? Está docinho!”

E as serestas? Ah! Como as serestas encantavam seu romântico

coração, fazendo com que ficasse acordada às quintas-feiras esperando

o primeiro acorde do violão que iria declarar o amor do jovem

enamorado pela vizinha da casa em frente.

                   Tinha, ainda, os pedintes que, de casa em casa, solicitavam

uma ajuda e pelos quais ela desenvolvia um afeto, sentindo brotar algo

que não sabia nominar, mas que era sua consciência social

desabrochando.

                   Morava com Esperança uma grande amiga de sua família,

Amanda, que era alguém muito especial e que em seu coraçãozinho

ocupava o lugar de uma segunda mãe. Dentre os inúmeros papéis que

representava para ela, sem dúvida o mais importante era o de contar

histórias para fazê-la dormir. E ali naqueles momentos de afeto

noturno, muitas lições eram passadas através do enredo das histórias.

E nem todas as histórias tinham o final feliz esperado. Ela ficava

intrigada. Como assim, Papai Noel esqueceu o presente? O menino

não tem sapato para ir à escola? Ela foi sendo apresentada a um mundo

que não conhecia, mas que sentia existir. E esse mundo não era cor de

rosa.

                   O tempo foi passando. Era amada e amava. Viveu sua infância

e início da adolescência naquele casarão que era muito mais que um

espaço de moradia. Simbolizava seu reduto de carinho, amor,

esperança e fé. Ali aprendeu a acreditar na vida e nas pessoas, a

idealizar um mundo de paz, amor e alegria.

                   Mas um dia tudo mudou. Ela teve que deixar o casarão. Nele

ficou parte de sua inocência e as lentes claras com que via o mundo.

Conheceu o sabor da decepção, da mentira, da inveja. Conheceu a

maldade humana. E lembrou-se das historias que Amanda contava. É

mesmo, pensou: o mundo não é só cor de rosa.

                   A menina cresceu. Não tem mais cadeira de balanço na

varanda nem mangueiras, mas ficaram sementes de sonho em seu

coração. Hoje, adulta, ouve à distância a música da seresta de outrora e

sorrindo pensa:

O SONHO NÃO ACABOU.

Autora: Maria Julieta Mandarino Firpo Fontes

Assistente social e Educadora. Longa experiência em Gestão universitária. Publicou, em parceria com o esposo José Américo Silva Fontes, o Livro Sentimentos & Emoções (2013).

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