Beleza Arredondada

Tento imaginar se a memória é capaz de recordar-me a emoção de tê-lo visto pela primeira vez. Talvez a um estrangeiro isto não pareça possível, mas é assim mesmo. Sou brasileira, bahiana, porém quando diante do lindo forte de S. Marcelo, tenho a impressão de ser turista. E por quê? Que há de fantástico e extraordinário nessa edificação que cada vez que a vejo me suscita intensos sentimentos? E o que será mesmo que ocorre com os turistas que lhes permite intuírem coisas que escapam aos naturais da terra? Os turistas se extasiam! A eles sucedem impressões que não ocorrem frequentemente aos que ali passam dia e noite porque ali nasceram.

     Qual a magia que mais me fascina? A sua forma redonda como a sugerir um abraço? A sua localização no meio do mar, cercada pelas águas azul - verdes da calma e serena baía, plena de luzes, mistério e silêncio? Já vi muitas fotos e documentários do forte na televisão, jamais o visitei, porém, o que não impede a minha paixão platônica.

Que segredos escondem as inúmeras portas que compõem a circunferência do pátio? Hoje, como ontem, está vazio, pronto a ser preenchido de sonhos e desejos. Quem sabe há tantos anos, a caserna abrigou desilusões dos jovens tenentes e soldados recém alistados, na esperança de se tornarem heróis. Cada um dos vãos poderia ter assistido à dolorosa experiência da morte, antecedendo os sonhos de vitória de amigos e companheiros.

     O sol traz o clarão dos canhões que parecem disparar ainda, contra os holandeses, duas vezes invasores derrotados em 1624 e 1630.

     As noites negras e silenciosas sussurram soluços na voz das ondas e nas carícias do vento. Noites infatigáveis e temerárias de tempestade, quando mesmo o mais corajoso empalidecia ante os rumores e a intensidade dos raios.

   Difícil é escolher qual a paisagem mais bela e a hora mais propícia para descrevê-lo. O raiar do dia nos regala o laranja e o amarelo do horizonte, enquanto o sol beija um adormecido mar de azul prateado. De longe, o espetáculo é indescritível! O gigante de pedra, redondo e sereno, lembra uma grande caixa que a qualquer momento poderá se abrir para revelar uma maravilhosa torta de aniversário.

      Durante o dia – e a maior parte do ano os dias são sempre dourados pelo sol – o forte, com sua presença ímpar, sugere-nos uma nave que nos levará ao fundo do mar, numa viagem inesquecível.

     E quando o dia se deita é uma outra paisagem onírica que nos envolve – a paisagem noturna. Todas as cores surgem então no céu e um arco-íris difuso nos introduz na escuridão.

     Noite feita, as luzes distantes da ilha de Itaparica, ao fundo, brilham com estrelas cadentes caídas por descuido, quando olhavam para baixo, festejando o silêncio apenas perturbado pelos doces rumores da água, acariciando as pedras.

     As poucas luzes da fortaleza são as vívidas memórias do seu passado glorioso e o sinal que nos inspira ainda hoje e nos reassegura de sua proteção. Enquanto nos entregamos ao sono, o forte vela por nós em seu eterno papel de guardião da nossa cidade.

Autora: Marli Piva Monteiro

Médica, pscanalista, escritora e tradutora.

Academia de Letras do Brasil

Seccional Bahia

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