UM ROMANCE DE FOLHETIM, DO BAÚ DAS MEMÓRIAS, OU SOBRE QUANDO  CONHECI A MÃE AURORA.

 

Quando Aurora, na minha vida auroreceu,

Cinco anos eram passados,

Em quadros preto-e-branco,

No fundo de um orfanato.

Deixada por pai general

Entre freiras rancorosas.

 

O general não queria a filha,

Mas vingar-se da mulher.

Para se vingar de Aurora

Do seu não aos seus desmandos,

Roubou-lhe a filha,

E da filha roubou auroras.

 

E a menina tábua triste, de cabelo liso,

Cortado em cuia, de olhos arregalados,

Era uma Maria desenxabida

Que nem nome certo tinha--batizada Mary.

E pasmem, em país de filhos da mãe, na carteira de identidade

Só nome de pai ela tinha.

Muito cedo, percebeu a menina que identidade é e

Não é um documento.

Ela vagava pelo orfanato, com medo de bruxas louras,

estória do pai general.

Com medo ou com atração, pois o general nunca explicara,

Ainda que perguntado:

O que é uma bruxa?

O que é uma loura?

 

Mary entre tantas Marias,

Entre quadros em preto-e-branco,

Preto-e-branco era o uniforme das meninas, os hábitos, a lousa-e-giz.

Uma Mary que não sabia quem era, e que lá fora,

Desesperada, buscava lhe uma mãe,

Uma Aurora.

 

Uma Aurora dançarina de Cassino da Urca,

Uma Aurora prostituta de luxo,

Vendendo joias de amantes, políticos famosos, para pagar advogados, detetives,

Ter marido de nome, para poder, se achasse,

Ficar, por lei, com a filha, atestando ser direita,

Mulher com visto de mãe-honesta, séria.

Atestar que deixara de ser Aurora.

 

E pela cama de Aurora rolava o Estado Novo,

A história do Brasil, a história de Aurora.

Quando Aurora apareceu na vida da menina Mary,

Chegou no orfanato Vestida de Rita loura, em tomara que caia

Ouro, rabo de peixe, equilibrando-se em

Salto agulha. Era puro Holliwood, nem precisava

Holofotes e muito menos trilha sonora,

Estava tudo lá -- imagem, cor e som.

 

E o amarelo dos cabelos, do vestido, das joias, a todos encandeceu.

As freiras rodavam em circulo, despencando de

Suas verdades eternas.

Cegas pelo brilho de tanta aurorice,

Tontas pelo cheiro de sexo com perfume francês—-Shalimar.

 

Aurora gargalhava, cercada de dois armários,

Um, advogado famoso, outro, candidato a marido.

Homens bonitos em ternos brancos, com sobrenomes enormes,

Gravatas vermelhas, anéis vermelhos

E sapatos de duas cores

 

As freiras desnorteadas por cheiro, cor, riso, fumaça,

Pecado de carne embrulhada em meia de seda.

Resistiam sem resistência a tanta sedução.

Oxuns e Iansãs rodopiavam e tambores rompiam o silêncio

Do orfanato. “Cheira a enxofre” disse a madre.

As irmãs noviças olhavam enviesado, sem mostrar que estavam a olhar.

E trouxeram à força a menina. Uma Mary amedrontada,

Com medo de que  a bruxa loura das profecias do pai,

Viera para lhe pegar.

Mas o que era ser loura?

Perguntava sem perguntar a menina que

Cinco anos passara entre quadros em preto-e-branco,

Preto-e-branco era o uniforme, os hábitos, a lousa-e-giz.

 

Pela primeira vez escutei a palavra mãe

“Sou sua mãe”.

Pela primeira vez, vi cores.

Cor-mãe-luxuria-sedução

- des-equação que me acompanhou, pela vida afora,

quebrando identidades impostas.

A tontura daquela aparição

Até hoje me assalta, por benção e por maldição.

Obrigando-me a buscar além do visto e ouvido.

A duvidar das identidades marcadas por códigos,

Tendo como sina, buscar auroras.

 

Quando Aurora em minha vida auroreceu

Eu  conheci as  cores.

Cor-mãe-luxúria-sedução,

Combinação única, além das virgens e

Das Marias.

Conheci também  história de sofrimento,

De busca de filha, de

Desespero, e de corpo trocado, vendido, dado em tal saga.

 

Mas não foi o sofrimento de Aurora,

História  de anos contada em segundos,

Que me atraiu, que me fez esquecer as advertências do pai,

Que me fez desobedecer o general, largar-me das mãos  das freiras, enfrentar excomunhão.

“Sim, eu vou com a” ..., e pela primeira vez, eu disse,

“Mãe”.

Com a mãe?  Eu fui com  a cor, com  o riso, com o cheiro, com

Os homens bonitos, com a mulher bonita, com  o deboche.

Eu queria era a  putice da mãe, a fantasia do lá fora

Eu queria  Aurora, e muitas, e muitas auroras.

 

Desde aquele dia de setembro de 1946,

Em um orfanato em Niterói

Muitas foram as viagens, as aventuras,

As lutas, e as muitas festas vermelhas, por outras auroras.

Momentos diversos, de uma vida muito bem vivida.

Mas aquele  momento, o momento do encontro com Aurora,

O momento da descoberta da cor,

O momento do som  do verbo, “mãe”,

É porto ou navio bem guardado,

Lembrado e relembrado

É também dívida de segredo, não revelado,

Em escritos, e,  tem sido tantos.

Segredo e remorso, por nunca ter dito ‘a

Aurora, algo somente muito mais tarde compreendido,

Sobre os tênues laços entre biografia e historia.

 

Tenho o singular privilégio de não ter naturalmente

Como outras meninas, meninos, ter  B nascido de mãe.

Mas de ter descoberto, de ter sido descoberta

Por Aurora.

 

Ter conhecido uma mulher que me apresentou 

As cores, desconcertou modelos de mãe,

Que grávida de meu irmão, todos os dias olhava

O retrato de Prestes--por que? E ela um dia me disse,

Muito mais que os tantos cursos anos depois cursados:

“Ele parece  bom, é bonito

E faz a gente em alguma coisa acreditar e por ela vale brigar. É que eu quero ter um filho comunista. Vai ser Carlos”.

O irmão Carlos foi viajante, roqueiro, turista,

E morreu jovem em uma motoca, em um ‘bad trip’.

E com ele, foi-se em águas, Aurora.

Já a irmã... tenta.

 

A mãe desconcertou ou combinou modelos?

Até hoje tenho a identidade, documento com nome de pai general.

Até hoje brigo contra identidades fixas em documentos.

 

Como valeu esperar cinco anos para descobrir

Sentidos outros em ser mãe e em ser filha de Aurora.

Responsabilidade muita, por brigar, por fundir outros tempos,

Para muitas mulheres e homens - cor, alegria, pão, festa e criação,

em revolucionários, por vir,  auroras.

AUTORA : MARY CASTRO – (Mary Garcia Castro)

Bolsista CAPES, Pós Graduação em Relações Étnicas e Contempoaraneidade - UESB, Jequié

Pesquisadora Flacso;  Bolsista CNPQ -aposentada UFBA.

Academia de Letras do Brasil

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