Paulo Emanuel Machado

Escritor - Psicanalista - Professor

O ESCRITOR.

 

O escritor olha a palavra como uma maçã no escuro

Iluminada.

A palavra lhe cai no colo

E bole

E mexe:

Aquece suas entranhas

Como uma silhueta

Estranha

Entre seus olhos.

 

O escritor coloca a palavra

No molho

E come

E mastiga:

Castiga o papel

Com um chicote

De palavras feito.

 

Refeito o coração,

O escritor ama

A partir das tortas linhas

De suas escrituras sacras.

VEREDAS

 

Feche a janela, a porta,

Que tem sangue jorrando

Na calçada.

Do alto das casas,

Nas coberturas,

Os homens lançam champanhe

Pra lavar as ruas.

Mas bebida alguma

Alcança o chão:

O pão dos pobres é pedra,

É o Corpo de Cristo crucificado

Hoje

Nas notícias dos jornais.

Feche a janela, a porta,

Que os mosquitos entram

Sem pedir licença a ninguém

E nos matam de dengue,

De zika, nos matam sem remédios

Nos postos,

Sem árvores nos quintais.

Já nem existem quintais.

Academia de Letras do Brasil

Seccional Bahia

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