Autora: Philonilla Moreno de Carvalho (PHILL MORENO)

Atriz/ Diretora de Teatro – idealista - e Escritora, exerce intensa atividade espiritual com prática social benemerente.

      O NINHO

Na mata, a passarita deixou de cantar. Pouco a pouco, o seu silêncio se fez notar. Os bichinhos outros da mata se puseram a perguntar!

              - Sabe vosmecê, por acaso, o por que da tristeza da passarita? - perguntou o velho pássaro preto da mata que, de tão velho, mal podia voar.

              - Não, não sei, respondeu o Sangue de Boi tão colorido, tão bonito, tão vermelho, jovem, irrequieto, brilhante a pular.

                     Na mata a passarita deixou de cantar e, pingo por pingo de cada hora, de cada dia, de cada minuto, deixou de voar, deixou de pular, ficou parada, paradinha suspensa no galho junto das folhas do pé da goiabeira, onde seu ninho, um dia, realizou para amar.

                     Na mata, a passarita ficou a esperar, sem cantos, sem voos, em silêncio, parada, paradinha, sem água do rio beber, sem larvas e bichinhos outros caçar para comer.

                     Na mata, os bichinhos outros se punham a perguntar – Por quê? Por quê? O que aconteceu? Era tão alegre, tão viva, irrequieta, leve, leve, sempre a voar.

                     Era a cobra matreira que, sorrateira na mata, vivia no chão a se arrastar, que perguntava a si mesma: por que a passarita ficou na mata parada sem cantar?

                     Os dias passaram, as noites chegaram, e a mata assistia o silêncio da passarita que aos poucos, aos pouquinhos, se deixava matar.

                     Longe da mata – Sim, muito longe do Sítio – como troféu, como ornamento decorativo, no centro de uma fruteira antiga de prata, com arranjo esmerado de folhas e flores secas, o ninho da passarita encantava a todos pela originalidade da ideia de quem tamanha façanha realizara.

                     Na mata, os bichinhos outros assistiram à queda da passarita no chão quando ela, sem cantos, em silêncio, não mais na goiabeira ficou parada no galho, onde construíra o seu ninho para amar.

                     E bichinho por bichinho, de longe e de perto, vieram a passarita, sem canto, visitar e, um por um, ficou sempre a perguntar:

              - Por que a passarita deixou de cantar?

                     Longe, muito longe, a passarita chegava em outro lugar e, lá também, os outros se puseram a lhe perguntar:

              - Por que, na mata, ficaste em silêncio, não mais a cantar?

                     E a passarita, se vendo assim, tendo que explicar, palavra por palavra, disse a cantar:

                     - Oh! É muito triste ter medo.

                            É muito triste ficar só.

                     Mas triste mesmo é ser triste quando se perde o que se amou, quando nos roubam o que nunca podem tirar, devolver, pois era dentro, muito dentro, que nada ficou. Levaram a minha paz, levaram o meu amor. O Ninho? O ninho sempre se refaz – Mas a liberdade do amor, o que dentro não ficou me trouxe aqui, em silêncio, sem voos, sem cantos, vazia de um grande amor.              

Academia de Letras do Brasil

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