Autora: Philonilla Moreno de Carvalho (PHILL MORENO)

Atriz/ Diretora de Teatro – idealista - e Escritora, exerce intensa atividade espiritual com prática social benemerente.

A casa onde o velho residia

Com a chegada do sol de cada dia, o avarandado da casa velha, branca onde o velho residia de janelas azuis do Sítio tão velha quanto ela a Mata de Pitanguinha de lembranças e de saudade se enfeitava, e, aos pouquinhos ia se assumindo inteira para dizer que ela na mata também é flor, é saudade e dor.

    Grito de mãe parindo o seu primeiro filho.

    Soluço de vó que vê morto seu último rebento, e fica só, na espera, da morte do fim.

    Na Mata da Pitanguinha no silêncio, guardando lembranças, ouvindo soluços, companheira da mata, a casa branca de janelas azuis morre a cada dia, a cada hora, a cada nascer do sol a cada espera.

    A história da casa branca de janelas azuis corria nas veias do corpo carcomido do velho que lá residia. Nas rachaduras dos seus pés, no seu sorriso largo e luminoso. Luminoso como o amanhecer do dia da Mata de Pitanguinha.

    A cada nascer do dia a mata pulsa de desejos e, abraçando o sol permite a este que cumpra a sua missão de fazer crescer, de fazer ver, de um muito exigir.

    Os bichinhos rápidos a correr, agitados sempre veem este colóquio de amor ver.

    As árvores mansas saem das suas sombras oferecendo à Mata e ao sol suas flores, seus frutos, suas cores. Oferecem-se a este Rei, que chega para a sua orgia de amor, com a força de um Deus, com o silêncio de santo, com a magia de anjo, com a bravura de herói.

    O ruído dos pássaros e a claridade reinam na festa – na fantasia, para dizer da força da festa pois mesmo em dia de chuva, de muita neblina e frio a magia deste encontro transforma a Mata em fada madrinha, em mulher senhora rainha perdida de amor.

    O sino da Capela do Sítio que inacabada ficou um dia, nesta hora com certeza vibraria para dizer à mata o quanto ele se rendia cativa de um brilhante senhor. Rainha escrava, _ rainha devassa _ rainha de muito, de muito amor.

    Nesta hora a mata é só desejo, só gemidos – volúpia, festa.

    Como fêmea submete-se inteira. Parte por parte de seu corpo exala aromas diversos, deixando o amado perdido sem saber das suas noites tranquilas, das suas noites de lua cheia, dos seus mistérios outros de amor.

    A história da Mata de Pitanguinha corria livre, solta na boca sem dentes do velho, que, da mata tudo sabia, e que na casa branca residia.

    Da mata o velho entendia. De um tudo da mata conhecia.

    As estórias, e a história da Mata de Pitanguinha o velho contava. Contava às crianças, aos viajantes, aos visitantes.

    As estórias do velho não eram de fadas, feiticeiras, lobisomens, mula sem cabeça.

    Nas estórias do velho Chapeuzinho Vermelho, o lobo e a Bela Adormecida viviam longe, muito longe - não existiam.

    O que o velho mesmo sabia era dos segredos da terra das árvores dos bichos que na mata existiam.

    A cada amanhecer da Mata de Pitanguinha o rio com sua água escura e fria se faz manso, dengoso. Deixando surgir à sua tona os seus mistérios. No céu a cada amanhecer, as nuvens veem dizendo da qualidade do amor do sol que tira dos braços da noite a mata e que a ele pertence – como rainha. Rainha escrava, devassa de muito amor.

    O velho via a Mata de Pitanguinha vestida de amarelo, cantar e sorrir como o vermelho, rica de ritmos e requebros verde muito verde dançar com o sol uma dança de muitos e muitos, e muitos volteios na sua festa de gala quando ele aparecia.    Vivendo assim os seus desejos – realizando os seus anseios o sol de cada dia também depende ferozmente da sua parceira para viver as predestinações do seu destino.

    O velho se dizia centenário e sempre que contava as histórias da mata se fazia árvore, rio, vento, tempo e dor.

    No chão batido da casa branca de janelas azuis o seu sorriso emoldurava o mistério de uma vida vivida na mais longa solidão.

Academia de Letras do Brasil

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